INTRODUÇÃO

"A religião consiste na interrogativa de Deus e na resposta do homem. Se Deus não nos interroga, todas as nossas perguntas são vãs. A resposta dura um instante, mas o empenho continua".

(A. J. Heschel)


A interrogação da vida

Diante de uma pergunta, a atitude mais imediata e natural é a de procurar uma resposta. Não importa qual seja ela. O importante é que nos afaste o mais rapidamente possível da sensação de inquietação causada pela dúvida na qual nos encontramos.

Muitas vezes a pergunta perde o sentido e, com isso, se esvai a disponibilidade de nos deixarmos interpelar. As perguntas acabam por não mais nos interrogarmos.

 No entanto, o nascimento, o nosso corpo, os outros, a própria vida se apresentam a nós como perguntas diárias das quais não podemos fugir. Na pergunta, no fato mesmo de sermos interpelados, revela-se uma iniciativa que não depende de nós, mas que pede para ser reconhecida.

Responder à pergunta que a própria vida em si é significa, então, antes de tudo, deixar-se envolver por ela. O próprio viver não é outro senão um responder, um corresponder àquela iniciativa de que fomos quistos no mundo. E responder a tal iniciativa nos torna capazes de responder com ela.

É muito fácil confundir "pergunta" e "problema". Ambos nos colocam diante de uma interrogação. Mas são, na realidade, profundamente diversos.

 

 

O problema (do grego pro-b-llein, "pôr adiante") é alguma coisa que está diante de mim, como outro objeto qualquer. Uma vez resolvido o problema, diminuem as interrogações. Ao colocar-se diante do problema, o homem tende a planejar, calcular, prevenindo-se bem para não se deixar envolver e fugindo de todas as incertezas.

Na pergunta, ao contrário, é como se fôssemos perseguidos por alguém que nos interpela, que está sempre a perguntar e quer saber sobre nós. A pergunta, de fato, não vem de nós, não está em nosso poder; o espaço e a abertura gerados pela pergunta não estão sob o nosso domínio.

A pergunta é o testemunho de que não Viemos de nós mesmos. É a evidência de uma alteridade, isto é, de uma realidade que não depende de nós, que é outro de nós, mas que ao mesmo tempo quer nos envolver no seu ser, tornar-nos parte da sua existência mesma.

O que a pergunta exige é, assim, ser 'atravessada, 'escrutinada até o fundo'. Não devemos ter medo disso, nem fingir não sermos nós os 'interpelados'. Se temos a coragem de nos deixar conduzir por essa mão, dando-lhe a confiança, o respeito e a dignidade que ela merece, descobrimos que esta não é a voz de um frio inquisidor, mas um apelo aflito Daquele que deseja dividir conosco a sua própria existência.

 

Deus que faz perguntas

Em uma de suas histórias - Algo que começa por ele - Dino Buzzati narra que o mercador Schroder, em uma de suas viagens, inesperadamente adoece. O mercador não dá tanta importância ao episódio, convencido de que seria curado e que tudo se resolveria, como sempre ocorrera com todos os outros problemas anteriores. Até o momento em que o médico, semelhantemente a um homem, cobrirá o mercador de perguntas terminando por revelar-lhe a tragédia daquela doença: não uma coisa banal, mas a lepra.

É uma metáfora inquietante e angustiosa da vida que nos mostra claramente a condição humana de ser interpelado para além de toda segurança e falsa presunção.

A boa notícia é que há uma alternativa às perspectivas angustiadas de Buzzati, alternativa que pede para ser 'atravessada e escrutinada até o fundo'. A Verdade da vida brotará, então, como um convite para corresponder à sua capacidade de fazer-nos viver seriamente.

A Bíblia frequentemente apresenta Deus na posição daquele que pede, que estimula à liberdade e à escolha, que chama à responsabilidade. Pensemos nos capítulos finais do livro de Jó. Depois que os amigos se apresentam como os especialistas' em Deus, depois que Jó grita a Deus para responder e não ficar em silêncio diante da sua tragédia, Deus decide entrar em cena. E como o faz? Através de perguntas. Serão estas mesmas perguntas que ajudarão Jó a conhecer Deus não mais de ter ouvido falar, mas por experiência pessoal.

Na Bíblia o homem eleva-se a Deus, procura-O e interroga-O para entender o porquê de tantas situações incompreensíveis: "Se o Senhor está conosco, por que nos aconteceu tudo isso?" (Jz 6,13); "Por que me fazes ver a iniquidade e ficas como espectador da opressão?" (Hab 1,3); "Até quando, Senhor?" (Ap 6,10).

Deus também se volta para o homem e lhe dirige algumas perguntas: “Onde estás?” (Gn 3,9); "Onde está Abel, teu irmão?" (Gn 4,9).

As perguntas que Deus dirige ao homem na Bíblia servem para nos sentirmos 'interessantes' aos seus olhos. Deus não somente faz as perguntas, mas escuta as respostas - também quando estas não são 'corretas' - e nos conduz com ternura à verdade.

A pergunta de Deus é boa e tem valor próprio porque permanece aberta e convida à busca, à espera, ao caminho, ao descanso, ao desejo Daquele que nos interpelou.

O homem tem a pretensão de encontrar soluções fáceis para tudo, instruções para o uso e para fazer funcionar cada coisa. Também diante do mistério e de situações humanamente inexplicáveis e, muito frequentemente inaceitáveis, não há limites no anseio pela elaboração de manuais de instrução. Mas a coragem de parar diante do porquê, de sofrer pela falta de uma resposta, de viver o abandono e a entrega da pergunta até o dia do encontro definitivo com Ele, esta coragem é de poucos e quase nunca está presente.

Somente a pergunta de Deus é capaz de despertar sob as ruínas da nossa existência a memória do que somos de fato no íntimo e que, muito frequentemente, esquecemos ao viver na superficialidade do nosso ser.

O poeta e dramaturgo francês Paul Claudel teve a oportunidade de escrever que 'o respeito dos católicos pelas Sagradas Escrituras é sem limite, mas este se manifesta, sobretudo, pelo estar distante delas'. Para evitar este risco, poderemos fazer nossa a exortação do grande escritor italiano ítalo Calvino em relação à difícil tarefa que a escola tem de favorecer o contato direto com os grandes clássicos da literatura: 'A escola deveria servir para fazer entender que nenhum livro que fala de um outro livro diz o suficiente do livro em questão. Por isto nunca será exagerada a recomendação da leitura direta dos textos'.

Sinceramente, gostaríamos que este livro servisse para aumentar no leitor o desejo de ter em suas mãos a Palavra de Deus, para descobrir a alegria de uma relação sincera com Ele, feita de perguntas e de respostas abertas para outras perguntas.

(extraído)


Escrito Dom, 19 de Fevereiro de 2012 13:01 por Nils

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